Fazei-nos senhor seus instrumentos

CARTA APOSTÓLICA DIES DOMINI

11/09/2010 21:30

 DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II 

 AO EPISCOPADO AO CLERO 
E AOS FIÉIS  DA IGREJA CATÓLICA 
SOBRE A SANTIFICAÇÃO DO DOMINGO


 

Introdução
Veneráveis Irmãos no episcopado e no sacerdócio, caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. O dia do Senhor - como foi definido o domingo, desde os tempos apostólicos1  -, mereceu sempre, na história da Igreja, uma consideração privilegiada devido à sua estreita conexão com o próprio núcleo do mistério cristão. O domingo, de fato, recorda, no ritmo semanal do tempo, o dia da ressurreição de Cristo. É a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n'Ele da primeira criação e o início da nova criação (cf. 2Cor 5,17 ). É o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do último dia, quando Cristo vier na glória (cf. At 1,11 ; 1Ts 4,13-17 ) e renovar todas as coisas (cf. Ap 21,5 ).
Ao domingo, portanto, aplica-se, com muito acerto, a exclamação do Salmista: Este é o dia que Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria (Sl 118 [117],24 ). Este convite à alegria, que a liturgia de Páscoa assume como próprio, traz em si o sinal daquele alvoroço que se apoderou das mulheres - elas que tinham assistido à crucifixão de Cristo - quando, dirigindo-se ao sepulcro muito cedo, no primeiro dia depois do sábado (Mc 16,2 ), o encontraram vazio. É convite a reviver, de algum modo, a experiência dos dois discípulos de Emaús, que sentiram o coração a arder no peito, quando o Ressuscitado caminhava com eles, explicando as Escrituras e revelando-Se ao partir do pão (cf. Lc 24,32.35 ). É o eco da alegria, a princípio hesitante e depois incontida, que os Apóstolos experimentaram na tarde daquele mesmo dia, quando foram visitados por Jesus ressuscitado e receberam o dom da sua paz e do seu Espírito (cf. Jo 20,19-23 ).
2 . A ressurreição de Jesus é o dado primordial sobre o qual se apoia a fé cristã (cf. 1Cor 15,14 ): estupenda realidade, captada plenamente à luz da fé, mas comprovada historicamente por aqueles que tiveram o privilégio de ver o Senhor ressuscitado; acontecimento admirável que não só se insere, de modo absolutamente singular, na história dos homens, mas que se coloca no centro do mistério do tempo. Com efeito, a Cristo pertence o tempo e a eternidade, como lembra o rito de preparação do círio pascal, na sugestiva liturgia da noite de Páscoa. Por isso, a Igreja, ao comemorar, não só uma vez ao ano mas em cada domingo, o dia da ressurreição de Cristo, deseja indicar a cada geração aquilo que constitui o eixo fundamental da história, ao qual fazem referência o mistério das origens e o do destino final do mundo.
Portanto, pode-se com razão dizer, como sugere a homilia de um autor do século IV, que o dia do Senhor é o senhor dos dias2 . Todos os que tiveram a graça de crer no Senhor ressuscitado não podem deixar de acolher o significado deste dia semanal, com o grande entusiasmo que fazia S. Jerônimo dizer: O domingo é o dia da ressurreição, é o dia dos cristãos, é o nosso dia3 . De fato, ele é para os cristãos o principal dia de festa4 , estabelecido não só para dividir a sucessão do tempo, mas para revelar o seu sentido profundo.
3. A sua importância fundamental, reconhecida continuamente ao longo de dois mil anos de história, foi reafirmada vigorosamente pelo Concílio Vaticano II: Por tradição apostólica, que nasceu do próprio dia da Ressurreição de Cristo, a Igreja celebra o mistério pascal todos os oito dias, no dia que bem se denomina do Senhor ou domingo5 . Paulo VI ressaltou novamente a sua importância, quando aprovou o novo Calendário Geral romano e as Normas universais que regulam o ordenamento do Ano Litúrgico6 . A iminência do terceiro milênio, ao solicitar aos crentes a refletirem, à luz de Cristo, sobre o caminho da história, convida-os também a redescobrir, com maior ímpeto, o sentido do domingo: o seu mistério, o valor da sua celebração, o seu significado para a existência cristã e humana.
Com satisfação, vou tomando conhecimento das inúmeras intervenções do Magistério e das iniciativas pastorais que, vós, veneráveis Irmãos no episcopado, quer individualmente quer em conjunto - coadjuvados pelo vosso clero - realizastes sobre este tema importante nestes anos pós-conciliares. No limiar do Grande Jubileu do ano 2000, quis oferecer-vos esta Carta Apostólica para alentar o vosso empenho pastoral num setor tão vital. Mas simultaneamente desejo dirigir-me a todos vós, caríssimos fiéis, tornando-me de algum modo presente espiritualmente nas várias comunidades onde, cada domingo, vos reunis com os vossos respectivos Pastores para celebrar a Eucaristia e o dia do Senhor. Muitas das reflexões e sentimentos que animam esta Carta Apostólica maturaram durante o meu serviço episcopal na Cracóvia e mais tarde, depois de ter assumido o ministério de Bispo de Roma e Sucessor de Pedro, nas visitas às paróquias romanas, realizadas com regularidade precisamente nos domingos dos diversos períodos do ano litúrgico. Deste modo, parece-me prosseguir o diálogo vivo que gosto de manter com os fiéis, refletindo convosco sobre o sentido do domingo e sublinhando as razões para vivê-lo como verdadeiro dia do Senhor, inclusivamente nas novas circunstâncias do nosso tempo.
4. Ninguém desconhece, com efeito, que, num passado relativamente recente, a santificação do domingo era facilitada, nos países de tradição cristã, por uma ampla participação popular e, inclusive, pela organização da sociedade civil, que previa o descanso dominical como ponto indiscutível na legislação relativa às várias atividades laborativas. Hoje, porém, mesmo nos países onde as leis sancionam o caráter festivo deste dia, a evolução das condições sócio-econômicas acabou por modificar profundamente os comportamentos coletivos e, consequentemente, a fisionomia do domingo. Impôs-se amplamente o costume do fim de semana, entendido como momento semanal de distensão, transcorrido, talvez, longe da morada habitual e caracterizado, com frequência, pela participação em atividades culturais, políticas e desportivas, cuja realização coincide precisamente com os dias festivos. Trata-se de um fenômeno social e cultural que não deixa, por certo, de ter elementos positivos, na medida em que pode contribuir, no respeito de valores autênticos, para o desenvolvimento humano e o progresso no conjunto da vida social. Isto é devido, não só à necessidade do descanso, mas também à exigência de festejar que está dentro do ser humano. Infelizmente, quando o domingo perde o significado original e se reduz a puro fim de semana, pode acontecer que o homem permaneça cerrado num horizonte tão restrito, que não mais lhe permite ver o céu. Então, mesmo bem trajado, torna-se intimamente incapaz de festejar7 . Aos discípulos de Cristo, contudo, é-lhes pedido que não confundam a celebração do domingo, que deve ser uma verdadeira santificação do dia do Senhor, com o fim de semana entendido fundamentalmente como tempo de mero repouso ou de diversão. Urge, a este respeito, uma autêntica maturidade espiritual, que ajude os cristãos a serem eles próprios, plenamente coerentes com o dom da fé, sempre prontos a mostrar a esperança neles depositada (cf. 1Pd 3,15 ). Isto implica também uma compreensão mais profunda do domingo, para poder vivê-lo, inclusivamente em situações difíceis, com plena docilidade ao Espírito Santo.
5. Deste ponto de vista, a situação apresenta-se bastante diversificada. Por um lado, temos o exemplo de alguns Igrejas jovens que demonstram com quanto fervor seja possível animar a celebração do domingo, tanto nas cidades como nas aldeias mais afastadas. Ao contrário, noutras regiões, por causa das dificuldades sociológicas mencionadas e talvez da falta de fortes motivações de fé, regista-se uma percentagem significativamente baixa de participantes na liturgia dominical. Na consciência de muitos fiéis parece enfraquecer não só o sentido da centralidade da Eucaristia, mas até mesmo o sentido do dever de dar graças ao Senhor, rezando-Lhe unido com os demais no seio da comunidade eclesial.
A tudo isto há que acrescentar que, não somente nos países de missão, mas também nos de antiga evangelização, pela insuficiência de sacerdotes, não se pode, às vezes, garantir a celebração eucarística dominical em todas as comunidades.
6. Diante deste cenário de novas situações e questões anexas, parece hoje mais necessário que nunca recuperar as profundas motivações doutrinais que estão na base do preceito eclesial, para que apareça bem claro a todos os fiéis o valor imprescindível do domingo na vida cristã. Agindo assim, prosseguimos no rasto da tradição perene da Igreja, evocada firmemente pelo Concílio Vaticano II quando ensinou que, ao domingo, os fiéis devem reunir-se para participarem na Eucaristia e ouvirem a palavra de Deus, e assim recordarem a Paixão, Ressurreição e glória do Senhor Jesus e darem graças a Deus que os regenerou para uma esperança viva pela Ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos (1Pd 1,3 )8 .
7. Com efeito, o dever de santificar o domingo, sobretudo com a participação na Eucaristia e com um repouso permeado de alegria cristã e de fraternidade, é fácil de compreender se se consideram as múltiplas dimensões deste dia, que serão objeto da nossa atenção na presente Carta.
O domingo é um dia que está no âmago mesmo da vida cristã. Se, desde o início do meu Pontificado, não me cansei de repetir: Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo9 , hoje neste mesmo sentido, gostaria de convidar vivamente a todos a redescobrirem o domingo: Não tenhais medo de dar o vosso tempo a Cristo! Sim, abramos o nosso tempo a Cristo, para que Ele possa iluminá-lo e dirigi-lo. É Ele quem conhece o segredo do tempo e o segredo da eternidade, e nos entrega o seu dia, como um dom sempre novo do seu amor. Há de se implorar a graça da descoberta sempre mais profunda deste dia, não só para viver em plenitude as exigências próprias da fé, mas também para dar resposta concreta aos anseios íntimos e verdadeiros existentes em todo ser humano. O tempo dado a Cristo, nunca é tempo perdido, mas tempo conquistado para a profunda humanização das nossas relações e da nossa vida.
Capítulo I
DIES DOMINIA
A celebração da obra do Criador Tudo começou a existir por meio d'Ele (Jo 1,3 )
8. O domingo, segundo a experiência cristã, é sobretudo uma festa pascal, totalmente iluminada pela glória de Cristo ressuscitado. É a celebração da nova criação. Este seu caráter, porém, se bem entendido, é inseparável da mensagem que a Escritura, desde as suas primeiras páginas, nos oferece acerca do desígnio de Deus na criação do mundo. Com efeito, se é verdade que o Verbo se fez carne na plenitude dos tempos (Gl 4,4 ), também é certo que, em virtude precisamente do seu mistério de Filho eterno do Pai, Ele é origem e fim do universo. Afirma-o S. João, no Prólogo do seu Evangelho: Tudo começou a existir por meio d'Ele, e sem Ele nada foi criado (1,3 ). Também S. Paulo, ao escrever aos Colossenses, o sublinha: N'Ele foram criadas todas as coisas, nos Céus e na Terra, as visíveis e as invisíveis [...]. Tudo foi criado por Ele e para Ele (1,16 ). Esta presença ativa do Filho na obra criadora de Deus revelou-se plenamente no mistério pascal, no qual Cristo, ressuscitando como primícia dos que morreram (1Cor 15,20 ), inaugurou a nova criação e deu início ao processo que Ele mesmo levará a cabo no momento do seu retorno glorioso, quando entregar o Reino a Deus Pai [...], a fim de que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,24.28 ).
Portanto, já na aurora da Criação, o desígnio de Deus implicava esta missão cósmica de Cristo. Esta perspectiva cristocêntrica, que se estende sobre todo o arco do tempo, estava presente no olhar comprazido de Deus quando, no fim da sua obra, abençoou o sétimo dia e santificou-o (Gn 2,3  ).
Nascia então - segundo o autor sacerdotal da primeira narração bíblica da criação - o sábado, que caracteriza profundamente a primeira Aliança e, de algum modo, preanuncia o dia sagrado da nova e definitiva Aliança. O mesmo tema do repouso de Deus (cf. Gn 2,2  ) e do repouso por Ele oferecido ao povo do Êxodo, com o ingresso na terra prometida (cf. Ex 33,14  ; Dt 3,20  ; Js 21,44  ; Sl 95[94],11  ), é relido no Novo Testamento sob uma luz nova, a do repouso sabático definitivo (cf. Hb 4,9  ), onde entrou Cristo com a sua ressurreição e também o Povo de Deus é chamado a entrar, perseverando na senda da sua obediência filial (cf. Hb 4,316  ). É necessário, portanto, reler a grande página da criação e aprofundar a teologia do sábado, para chegar à plena compreensão do domingo. No princípio, Deus criou os céus e a terra (Gn 1,1 )
9. O estilo poético da narração do Gênese atesta a admiração sentida pelo homem diante da grandeza da Criação e o sentimento de adoração que daí deriva por Aquele que, do nada, criou todas as coisas. Trata-se de uma página de intenso significado religioso, um hino ao Criador do universo, indicado como o único Senhor ante as frequentes tentações de divinizar o próprio mundo, e simultaneamente um hino à bondade da criação, toda ela plasmada pela mão forte e misericordiosa de Deus.
Deus viu que isto era bom (Gn 1,10.12  , etc.). Este refrão, que acompanha a narração, projeta uma luz positiva sobre cada elemento do universo, deixando, ao mesmo tempo, vislumbrar o segredo para a sua justa compreensão e possível regeneração: o mundo é bom, na medida em que permanece ancorado à sua origem e, após a sua deturpação pelo pecado, torna a ser bom quando, com a ajuda da graça, volta Àquele que o criou. Esta dialética, certamente, não está a referir-se às coisas inanimadas e aos animais, mas aos seres humanos, aos quais foi concedido o dom incomparável, mas também o risco da liberdade. A Bíblia, logo após a narração da Criação, põe precisamente em evidência o contraste dramático entre a grandeza do homem, criado à imagem e semelhança de Deus, e a sua queda, que abre no mundo o cenário obscuro do pecado e da morte (cf. Gn 3  ).
10. Saído assim das mãos de Deus, o universo traz em si a imagem da sua bondade. É um mundo belo, digno de ser admirado e gozado, mas também destinado a ser cultivado e desenvolvido. O complementabilidade da obra de Deus abre o mundo ao trabalho do homem. Concluída, no sétimo dia, toda a obra que havia feito, Deus repousou no sétimo dia, do trabalho por Ele realizado (Gn 2,2 ). Através desta evocação antropomórfica do trabalho divino, a Bíblia não somente nos oferece uma indicação sobre a misteriosa relação entre o Criador e o mundo criado, mas projeta também uma luz sobre a missão do homem para com o universo. O trabalho de Deus é, de certa forma, exemplo para o homem. Este, de fato, é chamado não só a habitar mas também a construir o mundo, tornando-se, assim, colaborador de Deus. Os primeiros capítulos do Gênese, como escrevi na Encíclica Laborem Exercens, constituem, de certa forma, o primeiro evangelho do trabalho10 . É uma verdade também ressaltada pelo Concílio Vaticano II: O homem, criado à imagem de Deus, recebeu o mandamento de dominar a terra com tudo o que ela contém e governar o mundo na justiça e na santidade e, reconhecendo Deus como Criador universal, orientar-se a si e ao universo para Ele; de maneira que, estando todas as coisas sujeitas ao homem, seja glorificado em toda a terra o nome de Deus11 .
A realidade extraordinária do progresso da ciência, da técnica, da cultura nas suas diversas expressões - um progresso sempre mais rápido, e hoje até vertiginoso - é o fruto, na história do mundo, da missão com a qual Deus confiou ao homem e à mulher a tarefa e a responsabilidade de se multiplicarem por toda a terra e de a dominarem através do trabalho, observando a sua Lei.
O shabbat: o repouso jubiloso do Criador
1 1. Se, na primeira página do Gênese, o trabalho de Deus é exemplo para o homem, é-o igualmente o seu repouso: Deus repousou, no sétimo dia, do trabalho por Ele realizado (Gn 2,2 ). Também aqui nos encontramos diante de um antropomorfismo, denso de uma mensagem sugestiva.
O repouso de Deus não pode ser interpretado de forma banal, como uma espécie de inatividade de Deus. De fato, o ato criador, que está na constituição do mundo, é permanente por sua própria natureza e Deus não cessa nunca de agir, como o próprio Jesus quis lembrar precisamente com referência ao preceito sabático: Meu Pai trabalha continuamente e Eu também trabalho (Jo 5,17  ). O repouso divino do sétimo dia não alude a um Deus inativo, mas sublinha a plenitude do que fora realizado, como que a exprimir a paragem de Deus diante da obra muito boa (Gn 1,31 ) saída das suas mãos, para lançar sobre ela um olhar repleto de jubilosa complacência: um olhar contemplativo, que não visa novas realizações, mas sobretudo apreciar a beleza de quanto foi feito; um olhar lançado sobre todas as coisas, mas especialmente sobre o homem, ponto culminante da criação. É um olhar no qual já se pode, de certa forma, intuir a dinâmica esponsal da relação que Deus quer estabelecer com a criatura feita à sua imagem, chamando-a a comprometer-se num pacto de amor. É o que Ele realizará progressivamente, em vista da salvação oferecida à humanidade inteira, mediante a aliança salvífica estabelecida com Israel e culminada, depois, em Cristo: será precisamente o Verbo encarnado, através do dom escatológico do Espírito Santo e da constituição da Igreja como seu corpo e sua esposa, que estenderá a oferta de misericórdia e a proposta do amor do Pai a toda humanidade.
1 2. No desígnio do Criador, existe certamente uma distinção, mas também uma íntima conexão entre as ordens da criação e da salvação. Já o Antigo Testamento o destaca quando põe o mandamento referente ao shabbat em relação não só com o misterioso repouso de Deus depois dos dias da atividade criadora (cf. Ex 20,8-11 ), mas também com a salvação oferecida por Ele a Israel na libertação da escravidão do Egipto (cf. Dt 5,12-15 ). O Deus que descansa ao sétimo dia comprazendo-Se pela sua criação, é o mesmo que mostra a sua glória ao libertar os seus filhos da opressão do faraó. Tanto num caso como noutro poder-se-ia dizer, segundo uma imagem cara aos profetas, que Ele Se manifesta como o esposo diante da esposa (cf. Os 2,16-24 ; Jr 2,2 ; Is 54,4-8 ).
De fato, para entrar no âmago do shabbat, do repouso de Deus, como sugerem precisamente alguns elementos da tradição hebraica12  ocorre captar a densidade esponsal que caracteriza, do Antigo ao Novo Testamento, a relação de Deus com o seu povo. Assim a exprime, por exemplo, esta página maravilhosa de Oséias: Farei em favor dela, naquele dia, uma aliança, com os animais selvagens, com as aves do céu e com os répteis da terra: farei desaparecer da terra o arco, a espada e a guerra e os farei repousar em segurança. Então te desposarei para sempre; desposar-te-ei conforme a justiça e o direito, com misericórdia e amor. Desposar-te-ei com fidelidade, e tu conhecerás o Senhor (2,20-22  ). Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o (Gn 2,3 )
1 3. O preceito do sábado, que na primeira Aliança prepara o domingo da nova e eterna Aliança, radica-se, portanto, na profundidade do desígnio de Deus. Precisamente por isso, não está situado junto das normativas puramente cultuais, como é o caso de tantos outros preceitos, mas dentro do Decálogo, as dez palavras que delineiam os próprios pilares da vida moral, inscrita universalmente no coração do homem. Concebendo este mandamento no horizonte das estruturas fundamentais da ética, Israel e, depois, a Igreja mostram que não o consideram uma simples norma de disciplina religiosa comunitária, mas uma expressão qualificante e imprescindível da relação com Deus, anunciada e proposta pela revelação bíblica. É nesta perspectiva que tal preceito há de ser, também hoje, redescoberto pelos cristãos. Se possui também uma convergência natural com a necessidade humana de repouso é, contudo, à fé que é preciso fazer apelo para captar o seu sentido profundo, evitando o risco de banalizá-lo e traí-lo.
1 4. Portanto, o dia do repouso é tal primariamente porque é o dia abençoado por Deus e por Ele santificado, isto é, separado dos demais dias para ser, de entre todos, o dia do Senhor.
Para compreender plenamente o sentido desta santificação do sábado na primeira narração bíblica da Criação, é necessário contemplar o texto no seu conjunto, que mostra com nitidez como toda a realidade, sem exceção, tem a ver com Deus. O tempo e o espaço pertencem-Lhe. Ele não é Deus de um dia só, mas de todos os dias do homem.
Assim, pois, se Ele santifica o sétimo dia com uma bênção especial e faz dele o seu dia por excelência, isto há de entender-se precisamente na profunda dinâmica do diálogo de aliança, melhor, do diálogo esponsal. É um diálogo de amor que, apesar de não conhecer interrupções, não é monótono: desenrola-se, de fato, valendo-se das diversas tonalidades do amor, desde as manifestações ordinárias e indiretas até as mais intensas, que as palavras da Escritura e, depois, os testemunhos de tantos místicos não temem descrever com imagens extraídas da experiência do amor nupcial.
1 5. Na verdade, a vida inteira do homem e todo o seu tempo, devem ser vividos como louvor e agradecimento ao seu Criador. Mas a relação do homem com Deus necessita também de momentos explicitamente de oração, nos quais a relação se torna diálogo intenso, envolvendo toda a dimensão da pessoa. O dia do Senhor é, por excelência, o dia desta relação, no qual o homem eleva a Deus o seu canto, tornando-se eco da inteira criação.
Por isso mesmo, é também o dia do repouso: a interrupção do ritmo, muitos vezes oprimente, das ocupações exprime, com a linguagem figurada da novidade e do desprendimento, o reconhecimento da dependência de nós mesmos e do universo de Deus. Tudo é de Deus! O dia do Senhor está continuamente a afirmar este princípio. Assim, o sábado da revelação bíblica foi sugestivamente interpretado como um elemento qualificante naquela espécie de arquitetura sagrada do tempo que caracteriza a revelação bíblica13  . Ele nos lembra que a Deus pertencem o universo e a história, e o homem não pode dedicar-se à sua obra de colaboração com o Criador, sem ter constantemente em consideração esta verdade.
Recordar para santificar
1 6. O mandamento do Decálogo, pelo qual Deus impõe a observância do sábado, tem, no livro do Êxodo, uma formulação característica: Recorda-te do dia de sábado, para o santificares (20,8 ). E mais adiante, o texto inspirado dá a razão disso mesmo, apelando-se à obra de Deus: Porque em seis dias o Senhor fez o

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